Olá

Bem vindo a partes de mim



sexta-feira, 22 de junho de 2018

ruindo

o pouco de firmeza que ousei construir
vai se desmanchando como areia fina
diante dos olhos
eu afundo as mãos na terra
e tudo que resgato é como água
se derrama entre os dedos e me escapa.

destrocei com punhos firmes
a casa que me abrigou com afeto e carinho
matei de sede as flores que brotaram
por desconhecer sua natureza diversa da minha

não sobraram nem mesmo as luzes
a cidade cai junto com a noite
e eu me recolho nos destroços

eu não entendo o porquê
mas sempre incendeio minha morada

sexta-feira, 13 de abril de 2018

desejar teu corpo
entre cem mil outros corpos
pelo prazer de não pertencer a nenhum destes
eu sinto a noite como um calafrio
que me percorre a espinha e cruza
o oceano das histórias que me pintam
a paixão me faz uma mulher oblíqua
cubro curvas e desenho trajetórias perdidas
entre todos os caminhos que me deitam retos
os dispenso
o destino é mais prazeroso quando o faço
dançando por meus quadris à vontade de meus lábios
o mar noturno e a areia resfriada
eu não sou esta mulher
eu não sou a mulher se que deita ao seu lado todas as noites
não sirvo bem com a domesticidade
gosto da selvageria que nos devora quando falta luz
de percorrer estradas intocadas e me perder em cada esquina
não me acostumo com a paralisia dos dias
porque seu fervor me percorre
e o calor que aquece também incendeia
incinera
a cortina os móveis as vigas
destrói a casa em que fizemos nosso lugar
o mundo carece de paixão em meio ao caos
não é a rotina que nos comove
é quebrá-la
digo que sempre há amor
enquanto houver aquilo que nos destrói e reconstrói
em seu olhar
sua saliva, seu gesto e seu toque.
é preciso viver antes que a morte chegue, antes que sejamos sua morada
ainda que vivos
é preciso viver
com muito mais, com muito mais que o pouco
ainda que seja muito.
Rasgar o véu dos dias.




quarta-feira, 7 de março de 2018

do rosto escorre um rio todos os dias
lágrimas após lágrimas
eu desenho na minha pele
o peso de minha cabeça

são vinte e um anos
meu corpo pende para vários lados
e ri da ousadia de quem acredita só haver dois

a alma é feita de tinta de aquarela
colorida, sutil e contagiante
mas desbota a cada gota que desce

alguns dias são mais difíceis
a saudade corrói
ferradura que pesa os pés
forjada à fogo

O que mata não é o medo
não é a dor, não é a ausência
o que mata - e que me perdoe o Senhor,
eu tenho medo de morrer -
é a desesperança.

esperança
esse bicho afoito,
que o escritor dizia bem:
não mata a fome, mas dá sabor ao pão
ensina bem como é ruim viver enssosso

tendo à crer que é possível,
fazer o possível, lutar o impossível
sempre um passo à frente da queda:
já onde nasce o amparo.

eu creio demais na bondade
e minhas pernas não aguentam mais o peso do corpo
os braços não aguentam o peso das mãos
e as mãos não aguentam mais carregar mundos

Hoje é só um dia ruim, que também vai passar.
às seis horas amanhece, às seis horas anoitece.
É sempre recomeço, é sempre continuidade.
resiliência.

sempre dizem que o mundo é meu
eu não o quero, pesa demais.
Cada um que tome o que é seu de direito.
e por direito eu quero dizer pertencimento.
afeto.
palavra que já não conseguimos achar perto da norma.


o mundo é grande demais
e eu sou pequena. pequena. pequena.
mas cresço. E todos os dias cresço.
Sou maior, serei maior.
Nunca do tamanho do mundo,
porque ele também cresce.


escrever é minha única morada
não há refúgio nem nos sonhos
escrever é o que me torna real
escrever é meu alimento, meu sal
minha esperança.

o sol sempre amanhecerá.
retrato de minha juventude.

éramos nós: barracas abertas por conta dos mosquitos, acordar de biquíni e correr para o mar. Fumar os matinais, comer frutas, rir da ocasião e deitar na canga cheia de terra. Ouvir a música, beber uma cerveja, descansar.


Sinto fim de ciclos, o número 12 a se reduzir cada vez mais. A vida muda, os tempos mudam. É cotovelo, pirangi, maracajaú. nós corremos a vida de praia à praia, de sol à sol, ouvindo belch, lendo livros e dançando feito magia. A juventude é um retrato lindo de quem não tem medo nenhum de viver.

Agradeço por todos os anos, grupinho, por todas as risadas. Esse grupo é isso: acordar tranquilo, viver cada segundo, estar el lugares diferentes, rir da rotina e e ser feliz.

28 de janeiro de 2018

sábado, 30 de dezembro de 2017

quero deixar aqui escrito o quanto fui feliz visitando Brasília, conhecendo a família de Lucas, observando a cidade que sonho em estudar, acordando em meio à natureza e rindo tão fácil. Preciso registrar também, pra quando os dias foram difíceis ou quando qualquer sentimento paira longe demais de mim, o quanto amo Lucas. É renovador encontrá-lo e sinto que o mundo inteiro dança mais leve quando estou ao seu lado, o seu olhar - tão profundo quando encontra o meu -  parece adentrar nas camadas mais íntimas de mim, e então aconchegá-las. É calmaria, um amor palpável, que me habita o peito e reverbera por toda pele. O amo, da forma mais linda que se pode amar: sem medo. Agradeço quando encontramos nossas mãos e assim dormimos, também quando sorrimos e entre os sorrisos cria-se uma conexão tão linda que quase é possível enxergá-la. Amo-o quando encosto meu rosto em seu peito e consigo ouvir seus batimentos; quando sobreponho minhas coxas às suas pernas sempre insones; quando me faz cócegas e olha de um jeito bobo e safado; quando aproxima seu corpo do meu em meio às tempestades e sinto que meu barco já não irá naufragar, encontrou porto.

É este sentimento botão, de onde tudo floresce, que agradeço, por me mostrar pode ser bonito partilhar. Agradeço também ao sentimento que se manifesta toda vez que o vejo, embora não possa descrever tal fenômeno. Sinto que o mundo inteiro pode ser bom, porque dentro de mim nasce e cresce algo tão encantador que minha única reação é aprender com isto e permitir que me transforme.

É difícil - talvez por ser demasiado simples - descrever a onda de sentimentos bons que vivo ao lado deste menino. Digo, portanto, que é amor. Amor leve, imenso e prazeroso.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

eu tenho muito medo de não conseguir
e sinto muita falta da minha família
me dói ter crescido só
me dói sentir que cresci só
mas tenho muito orgulho de mim
não pelo que sou
nem pelo que me tornarei
nem por qualquer outro motivo que as pessoas pudessem ver ou notar
eu tenho um orgulho danado de todas as vezes que consolei meu choro
que não me deixei cair ou quebrar em um ataque de pânico ou ansiedade
eu tenho muito orgulho de todas as vezes que fui meu próprio ombro
e pés, e colo
tenho muito orgulho de ter sobrevivido
e sobreviver todos os dias

isso não é um poema
são os pensamentos soltos de lembrete
mesmo que eu nunca seja boa
mesmo que eu nunca consiga
mesmo que eu falhe, erre
mesmo que eu fique pelo caminho
todos os dias em que eu for capaz de enxugar minhas próprias lagrimas
eu vou saber que eu venci

28 de novembro de 2016
As luzes da cidade esqueciam de aquecer quando precisavam dividir espaço com o calor do corpo dela.


Era ainda antes da meia noite, mas o vento marítimo desta esquina do continente não costuma perdoar quem nasce do agreste e desce para a praia; meu corpo tremia de frio e os pelos arrepiavam-se nos calafrios da espera interminável que precedia a sua chegada. Naquele tempo, aguardando sob a luz amarela dos postes - claros demais -  do setor I, eu tilintava os dedos na mesa, ansiosa pela visão que encheria meu corpo de calor, mesmo sem saber se estava preparada para receber tal onda.

31 de outubro de 2016
chega a madrugada e eu preciso ler poesias.
preciso ler poesias como quem come de colher as letras
preciso me afogar na saliva prepotente de todos os deus carnais pra esquecer o gosto do seu suor me travando a pele pelo arrepio
me lambuzaria todas as vezes que o poeta me dissesse a palavra amor
só por lembrar da tua língua me beijando os Lábios

5 de novembro de 2016