Olá

Bem vindo a partes de mim



domingo, 10 de novembro de 2024

te vi cruzar a rua, não ao meu encontro, mas em minha direção. 
vi o susto nos olhos que tanto te olham, e dessa vez me viram 
o passado ressurge feito faísca
somente pra anunciar a despedida

finalmente, posso te ver cruzando a rua
e te deixar ir

não há mais nada que nos prenda
e ao fechar o nó final
a linha do tempo repassou a mesma costura
somente pra cortar o fio
é findo nosso bordado. 
O tecido cresce, as bordas se alongam
e nosso desenho mingua na imensidão
entre retalhos de vida, somos uma ponte
nem destino, nem começo
somente uma passagem


domingo, 15 de setembro de 2024

kilariô

foi um raio de sol

inundou o quarto rasgando a cortina
o calor laranja anunciou:
a longa tempestade já passou

não era nada
mais que uma fresta 
mas o sol não tem medo
e de um rasgo tímido 
faz o verão inteiro

quarta-feira, 12 de junho de 2024

quero encontrar ferocidade em meus olhos
saudar no espelho a selvageria que habita meu caos
aquela que há tempo me despedi em troca da paixão

de trocas injustas nós entendemos 
ariel usou sua voz pela última vez
pra implorar amor
e nós nos despedimos de nossa coragem
pra caber nos braços 
de quem não conseguiria nos agarrar 
se estivéssemos inteiras

você me pediu que escolhesse
entre ser uma mulher ou ser a sua 
eu optei pela docilidade
a domesticidade silenciosa 
e assim matei minhas paixões
disse a mim mesma
se eu for boa o suficiente
se eu for gentil o suficiente
e se eu nunca reclamar
talvez ele me traia apenas às vezes
talvez ele minta apenas quando precisar
e talvez ele diga coisas tão horríveis sobre mim

ah meu amor, se eu tivesse permanecido a mesma 
se você não tivesse me matado aos poucos 
sem que eu tivesse a chance de reagir 
se a mulher que você escolheu 
fosse a mesma que você abandonou
ela não deixaria pedra sobre pedra nesse lugar

mas você foi sábio. 
é preciso adoecer antes de matar.

e é por isso 
que mesmo depois de te deixar
eu ainda busco a aprovação corrupta
de quem não me amaria enquanto não me destruísse

você me escolheu por ser forte
e seu fetiche era me deixar fraca

um brinde às chamas que não deixam de queimar
lua em escorpião quadril quente e coração selvagem
entre as cinzas do que fui
eu renasço ainda mais forte
mais minha 
mais mulher

será que existe amor depois do caos?
quando a poeira baixar
a fumaça diluir 
enquanto o mundo se lembra de ser mundo novamente
e os olhares se cruzam na multidão
será que existe repouso em que eles queiram se demorar?

existirá paixão sem dor? 
encantamento sem medo
risada sem julgamento

será que o amor brindará novamente em nossos copos?
e corpos
e bocas
e mãos

talvez o amor seja uma fantasia para fugirmos do tédio
talvez seja a verdade mais verdadeira que existe
talvez não exista

as borboletas no meu estômago
eram paixão 
ou medo?

será que o amor é algo a ser encontrado por ai? 
ou ele será que ele nascia
do enlace entre minhas pernas e tua cintura? 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

às vezes

queria saber balançar o tempo
arrancá-lo de suas pernas trêmulas
esticar suas nuances
e brincar feito criança

desfazer seus nós
acalentar a criança em meu peito
e saciar a fera selvagem faminta
que eu criei tanto tempo
sem medo que viesse me morder

o tempo ruge
muito mais ruge meu coração
bagunço memórias
esqueço-me da linearidade
e todo dia parece o hoje
em que seu toque me acalenta

seu eu soubesse domesticar o tempo
eu faria uma roda
desceria em espiral por suas fendas
e coloriria com o cheiro das nuvens

se eu pudesse domar o tempo
eu extinguiria a saudade
com um beijo suave de presente

se eu conseguisse dobrar o tempo
não olharia o futuro
não esqueceria o passado
aterrissaria em um presente imenso

talvez eu não precise balançar o tempo
talvez eu só precise abraçar à mim mesma