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segunda-feira, 8 de junho de 2026

penumbra

onde dorme o bicho papão?
será que cochila no escuro
quando não estamos dispostos à ter medo?

ou será que ao fim do expediente
quando a luz já banha as esquinas
e o quarto não parece tão assustador
ele se esgueira pelos fiapos de sombra
e rasteja sozinho para enfim descansar? 

pra onde vamos quando ninguém está olhando? 
aonde descansamos quando não somos ninguém?
até os monstros precisam repousar
então por que não temos a mesma dádiva? 

tenho sentido mais cansaço do que medo 
por isso, olharia às sombras e ofereceria o braço
me afastaria um pouco, para que nesse sobrado de cama
meu monstro particular pudesse enfim descansar o peito

talvez ele também tenha medo de mim
e só espere o dia amanhecer para voltar pra casa
pois bem, que sua noite não seja árdua 
afaste os lençóis, deite um pouco
entre nós dois, você ainda é o de menor pecado

pra onde eu iria se não tivesse medo da paz? 
se fosse apenas o que sou, sem questionamentos
será que ele me deixaria entrar em sua casa?
tomar um café, rir dos sustos das crianças 
ele me diria que sou velha para ter um medo de criança?  
ou diria que infância é um pedaço da gente 
que corre solto pelo tempo? 

queria fazer tantas pazes com o passado
mas talvez exista algo essencial nas guerras
o que de mim sobraria quando houvesse só o bom?
certamente, me faltaria meu bicho
e sem ele, não consigo dormir à noite
sem ele, me sinto sozinha no escuro

portanto, me resta sua companhia paradoxal
dentre tantas que me compõem 
venha, deite comigo, não precisa ter medo do amanhecer
hoje, nos faremos companhia

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